Foram-se a palha, a Coreia e o fogo. Mas a Vila Rubim permanece

“É uma espécie de caleidoscópio”, sentencia o psicanalista Paulo Bonates. “Onde mais é possível encontrar peixe, carne e aves? Ervas de todos os tipos, cereais, atabaques… olha aquela imagem de São Paulo, o padroeiro dos intelectuais!”, diz o médico, com um sorriso de canto de boca, apontando para a loja de artigos religiosos que está bem à frente de seu campo de visão. É um sábado de junho, manhã, e estamos dentro do mercado da Vila Rubim. A poucos metros de nós, no segundo andar do prédio construído após o incêndio que atingiu a Vila Rubim em 1994, Raimundo Machado e Grupo dão ritmo à roda da samba do “Tocando na Vila”, projeto de musicalização infantil que, sabatinamente, reúne os mais velhos em torno da cerveja e do samba de raiz. “Pagode aqui não entra”, diverte-se Machado, para completar. “Nosso negócio é o samba das antigas: Cartola, Noel Rosa e por aí vai…”.

A declaração do sambista é emblemática. Na Vila Rubim ainda reside uma Vitória como a de outrora. Para além do glamour dos bairros mais valorizados da capital capixaba, da efervescência universitária de Jardim da Penha e do boom imobiliário de bairros como Bento Ferreira e Jardim Camburi, a Vila resiste. Muitos dos edifícios ainda datam da metade do século passado. Muitos dos comerciantes já são senhores e senhoras de certa idade. Self-service ainda é “auto-serviço” e, exceção feita aos restaurantes, de pouco se usa. Um despretensioso “Verdura, senhor?” é a senha pra que se comece o processo de compra e venda que privilegia tato, olfato, paladar e visão. Arcaico? Talvez. Mais humano, impossível.

One Trackback

Skomentuj

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*
*