Em 1994, uma tragédia que deixou marcas

Em julho de 1994 era comum olhar para o céu e ver fogos de artíficio. Afinal, algumas festas juninas ainda se realizavam e o Brasil fazia uma grande campanha na Copa do Mundo daquele ano. Existiam muitos motivos para comemorar. Da implantação do Real aos gols de Romário, quase tudo era festa.  Contudo, na região da Ilha do Príncipe, mais precisamente na Vila Rubim, os fogos que rompiam o céu não deixavam a terra com alegria. Não havia fogueteiros, nem quadrilha, muito menos jogo da seleção. O que mandava os foguetes para o alto era um incêndio intenso e destruidor, que em apenas algumas horas colocou no chão muitos dos sonhos e esperanças que os comerciantes da região depositaram em suas lojas. As chamas lambiam tudo que estava ao alcance. O dia 1° de julho de 1994 vai ficar marcado para sempre na memória dos moradores de Vitória e da Vila Rubim, preenchendo uma das páginas mais trágicas da história capixaba.

De acordo com o Corpo de Bombeiros do Estado do Espírito Santo (CBMES), o incêndio foi  causado por “armazenamento irregular de fogos de artifício”. Ironicamente, os artigos, destinados a comemorações e festejos, foram os grandes causadores do desastre. Hoje 2º Sargento da corporação, Marcos Aurélio lembra que na época, os bombeiros não imaginavam que a região armazenava tão grande quantidade de pólvora. “Os fogos de artifício aumentaram ainda mais a força do fogo e o barulho no local. Era um cenário desolador”, conta. O que aconteceu na Vila Rubim, no entanto, não marcou somente os bombeiros, profissionais instruídos e preparados para esse tipo de situação, mas também a vida de cada um dos comerciantes, que além de perderem suas propriedades e mercadorias, ficaram sem a presença de amigos e colegas de trabalho, vitimados pelo fogo.

O que não vai voltar

Dono da loja de ervas medicinais “Pequena Selva”, Roque Rasseli é com certeza um dos personagens centrais desta história. Com mais de 30 anos de Vila Rubim, o antigo proprietário da Casa dos Milagres afirma que não esperava que uma tragédia dessa proporção pudesse acontecer com ele. “Vi minha loja queimar e não pude fazer nada. Quando eu cheguei na Vila Rubim o mercado já  tinha ido para o espaço”, recorda. A primeira impressão que Roque teve do mercado em chamas não podia ser mais precisa. A intensidade do fogo era tão grande que nem as mangueiras utilizadas pelos bombeiros eram capazes de conter o seu avanço. “Faltava água, hidrante, era tudo muito difícil”, revela.

Bombeiros combatem o incêndio de 1994 (Arq. Corpo de Bombeiros - Chico Guedes)

A grande perda de Rasseli, contudo, não estava em seu estoque e nos dois funcionários que perderam a vida. Balconistas e ajudantes da loja, Alex Rasseli e “Zito” não escaparam das chamas que tomaram a região e faleceram. O fato de perder um funcionário, uma pessoa querida, já é um trauma difícil de curar, mas o drama de Roque Rasseli foi ainda maior. Alex era seu sobrinho.

“Faltava água, hidrante… foi tudo muito difícil”, relembra o comerciante Roque Rasseli.

Continuar é sempre difícil quando se enfrenta o que Roque enfrentou, porém ele nunca desistiu. “Se você deixar a depressão te pega mesmo”. Rasseli juntou o pouco que sobrou depois do incêndio, vendeu propriedades, comprou outras, pagou divídas, e hoje é dono da loja de ervas mais conhecida da região.

Já Zélio de Melo, proprietário da Casa “Sempre Rica”, aonde teve início o incêndio, se recusou a falar sobre o assunto. “Passado ruim a gente tem que esquecer”, limitou-se a dizer.

Recomeço

Perdas e danos irreparáveis como os de Roque Rasseli aconteceram com a maioria dos trabalhadores da Vila Rubim. Ainda hoje é possível  ver marcas do que aconteceu há dezesseis anos atrás.  Alguns dos comerciantes que sofreram com o incêndio permanecem na vila. E não hesitam em afirmar que a tragédia apenas os tornou mais unidos e determinados a construir tudo de novo.

Esse é o pensamento de Renato Freixo, presidente da Associação dos Comerciantes da Vila Rubim. Ele lembra que após a tragédia os associados tiveram que aprender a se organizar para conseguir, junto ao poder público, melhoras no local. O mercado da Vila Rubim hoje conta com uma boa estrutura e aos poucos vai recuperando a clientela que possuía em 1994. Mas para isso acontecer, a luta não foi fácil.

“Logo depois do incêndio montaram um provisório perto da rodoviária que não deu muito certo”, lembra Freixo. Ninguém conseguiu vingar na região. O movimento era pouco. A saída então foi voltar à área destruída e montara barracas de madeira. Um recomeço arcaico, mas que culminou na construção do novo mercado.

Veja a galeria de fotos do incêndio de 1994

A história se repete

No dia seis de março deste ano o mercado voltou a queimar.  Parte de uns dos galpões foi tomado pelas chamas. Contudo, dessa vez não houve vítimas fatais e nem mesmo feridos. Segundo o Corpo de Bombeiros, o motivo do incêndio foi a precariedade das instalações elétricas do local.

(Arquivo - Associação dos Comerciantes da Vila Rubim)

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  • By A Cidade de Palha on 1 Jul ’10 at 2:12

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  • By O incêndio de 1994 em fotos on 1 Jul ’10 at 2:21

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  • […] de perder sua “Casa dos Milagres” no incêndio de 94, Roque Rasseli abandonou os artigos religiosos e descobriu o comércio de ervas e raízes […]

  • […] Visita a Vila Rubim pela primeira vez. “Eu achei que ela não existisse mais, que tivesse sido queimada por completo”, conta. O desconhecimento se explica. Trajando a camisa da bateria da escola de Samba “Nenê […]

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