Embaixo da Ponte Seca, o que a sociedade finge não ver

Foi “na doidera” que Rosivaldo Jardim Viana, 30 anos, pôs os pés em Vitória, depois de largar uma vida relativamente cômoda em Teixeira de Freitas, na Bahia. “Vim em 2007, pegando carona, depois que larguei minha mulher e acabei ficando sozinho. Quando eu tava com ela eu tinha tudo”, diz, consternado, enquanto prepara num braseiro improvisado com dois blocos de concreto, gravetos e uma cumbuca de papel alumínio, um pedaço de peixe para comer. Ao contrário de alguns anos atrás, hoje o baiano tem muito pouco. Quase nada. Tudo por causa do crack. Sua cozinha é compartilhada por outros tantos que como ele tem não muito mais que a roupa do corpo. Fica sob a ponte Moacyr Avidos, a Ponte Seca, que se tornou reduto de moradores de Rua e usuários de droga na capital capixaba.

A ponte Seca é o que especialistas em área de saúde e da assistência social chamam de “sala de uso”. De acordo com a equipe de Abordagem de Rua, ligada à Secretaria Municipal de Assistência Social da Prefeitura de Vitória passam por ali cerca de 40 pessoas todos os dias. Mais do que o vício até, o ponto em comum entre elas são as dificuldades no convívio com a família em algum momento de suas vidas. “Não necessariamente são rompidos os vínculos”, elucida a chefe da equipe, Gilderlândia Kunz. “Muitos vão e vêm e só usam esse espaço pra utilizar a droga.”

À primeira vista, são em sua maioria jovens entre 15 e 35 anos, como Rosivaldo. As histórias são inúmeras.  A poucos metros de onde estamos, Liliane “Sorriso”, 23 anos, divide um colchão de solteiro posto sobre a terra batida com o marido Lucas, de apenas 15. Com o cachimbo usado para fumar o crack bem guardado entre os dedos, Liliane conta que começou a usar drogas depois da morte de sua mãe, em 1994. “Nem me lembro como fui separada dos meus irmãos e comecei a viver na rua. Daí pra usar drogas foi bem rápido. Com 10 anos eu já fumava maconha e com meus 16 comecei a usar o crack”.

A Ponte Seca é o que a Saúde chama de "sala de uso". Foto: Manoella Mariano

Rosivaldo observa atentamente a fala de Liliane enquanto espera seu peixe ficar pronto. Só muda de semblante quando outro usuário se aproxima e lhe pede um pedaço. “Já comeu meu mamão e agora quer comer meu peixe? Sai fora!”, esbraveja, defendendo seu almoço naquela terça-feira. Pra conseguir comida, é preciso pedir ou pegar os restos de barracas de frutas e verduras ou do restaurante self-service que sempre às 14h despeja no lixo o que não foi consumido naquele dia.  É terça-feira à tarde e por debaixo da Ponte Seca há dezenas de usuários de crack acendendo seus cachimbos a céu aberto, sem cerimônia.

A tenda da cidadania

Foi fugindo da cocaína que Guilherme pôs seus pés em Vitória. Queria distância do ambiente familiar conturbado que tinha no Rio de Janeiro, sua cidade natal. “Tive uma infância abastada, meu pai era vereador, ia pra escola de carro oficial, estudei em boas escolas… mas ali mesmo residia o problema”, ele afirma, enquanto toma um gole de café numa lanchonete próxima ao mercado novo. “Quem me levava pra escola era o motorista e quem ia na reunião de pais era a empregada. Me tornei um moleque carente”. Daí pra frente, a trajetória de Guilherme desandou. Rejeitado por alguns colegas – “Na minha época era um absurdo ser filhos de pais separados” –, ele encontrou num bad boy de sua escola o espelho do que queria ser a partir de então. No pacote que incluía carros possantes, cavalos de pau e o sucesso com as meninas, estava também a cocaína. Anos mais tarde, já na capital capixaba,  experimentou o crack e a situação de rua por três anos, debaixo da Ponte Seca.  “O crack acabou com a minha vida. Não sabia mais quem era, perdi a identidade. Além do mais, a viagem era horrível, só trazia à minha mente as coisas das quais a gente tem medo nas ruas. O medo da morte, dos policiais… Mas aí vem a questão da dependência, que se impõe.”

Usuários assam peixes e carne num churrasqueira improvisada. (Foto: Manoella Mariano)

Os verbos no pretérito, no entanto, revelam que a história mudou de rumo. Hoje, Guilherme é voluntário da Associação Capixaba de Redução de Danos (Acard) e fruto de um trabalho da Semad chamado “Tenda da Cidadania”. A ação propõe a “intersetorialidade dos serviços em favor do combate à situação de rua e à drogas”, esclarece a chefe da equipe de abordagem de rua da PMV, Gilderlândia Kunz.  “Oferecemos atendimento emergencial e encaminhamento à rede de saúde e de assistência social. Queremos dizer aos usuários que as portas estão abertas a ele, que ele tem direitos e que pode estabelecer novos vínculos com a sociedade”. Junto aos profissionais da Tenda, Guilherme aborda os usuários de crack um a um, pacientemente. Perguntas como “E aí, meu chegado… tá usando camisinha com a namorada?” e“Já foi lá no Cadi, hoje?” se intercalam a uma conversa que beira a intimidade.

Uma das poucas usuárias que responde positivamente ao chamado do carioca é Sierlly. “Era o nome de um amigo do meu pai”, revela a menina de olhos claros que começou a se drogar por querer ser “rebelde e popular”. Syerlle está na rua já fazem três anos. Tem 23. A cocaína estava dentro de casa. A mãe está presa por causa do trafico. O crack ela conheceu na Ilha do Príncipe, bairro próximo ao mercado.“Comecei com 13 pra 14 anos. É bom, quase como comer um pudim, tá ligado o pudim? O problema é depois…”, conta. Aos poucos, a mãe de Samira, 9, Sabrina Letícia, 5 e Sâmela Vitória, de 1 ano e 6 meses, que moram com as respectivas madrinhas, tenta mudar sua história. Sierlly é uma das usuárias de crack mais freqüentes no Centro de Atendimento Dia da Prefeitura de Vitória, o Cadi, e diz ter vários planos para quando sair da situação de rua. “Quero ser uma mulher de família, viver a realidade da vida. Trabalhar, ser ‘Sargenta Tenente’ da Policia e missionária. Quero me resgatar e resgatar muitas almas pra Jesus aqui na Ponte Seca. Hoje essa é minha família, a família da droga. Tenho amor por eles. Ainda tenho coração, né…”.

Sierlly é uma das usuárias mais freqüentes do Centro de Atendimento Dia da Prefeitura de Vitória. (Foto: Manoella Mariano)

“Tudo bom é o caralho”

O senso comum sobre os usuários de crack aponta para figuras esquálidas, de músculos rijos e veias saltadas. Na “Cracolândia” capixaba, no entanto, há poucos assim. Só o que não se pode ignorar é a agressividade para com desconhecidos, principalmente durante o uso. Passam batidos os religiosos e a equipe da abordagem. Jornalistas? nem sempre. “A imprensa só quer foder com a gente. De fora é muito fácil julgar”, acusa Liliane.

Voltamos à Ponte Seca na segunda semana de entrevistas para tentar uma conversa com um travesti que já há algum tempo vive debaixo da ponte. Pedimos à Liliane que intermediasse o encontro, nos sentamos e esperamos algum sinal. Cerca de dez minutos depois ela acenou, pediu que esperássemos um pouco  e que mais tarde poderíamos ir ao encontro do travesti. Meia hora depois, nos achegamos. “Olá, tudo bem”, foram nossas primeiras e únicas palavras na abordagem a ele, que fechou a cara, se levantou e saiu em direção ao sentido oposto. “Tudo bom é o caralho”, dizia, arrancando risos dos usuários mais próximos. Um outro rapaz, com o cachimbo na mão, gritou: “Tá filmando aí, irmão? Tá filmando aí?” em tom de reprovação. Levantamos as mãos para mostrar que estávamos sem as câmeras e ele respondeu. “Tudo bom é o caralho! Vaza!”. Com a adrenalina nas alturas, não nos restava nada mais a fazer além de ir embora.

Para comprar a pedra, vendida aos montes nas imediações da ponte, muitos deles recorrem à agressividade. E à criminalidade. “Uns roba, outros pede, outros se prostitui. É… e vai indo”, revela Liliane. Poucos dias antes, seu companheiro Lucas havia sido preso por ter assaltado um rapaz. Como a vítima não compareceu à delegacia para reconhecer o acusado, Lucas foi solto. O relacionamento com as autoridades policiais, principalmente com a Guarda Municipal, também é difícil. E das duas partes. “Depois que começaram a andar armados, os guarda mudaram muito o comportamento. Muitos deles chegam à Ponte Seca chutando os usuários e rasgando documentos”, disse uma fonte que preferiu não se identificar. O guarda municipal José Leonardo Maciel contemporiza e diz que “abusos acontecem”, mas não freqüentemente. “Precisamos estar cada vez mais preparados para lidar com esse tipo de situação. O crack é devastador e transforma as pessoas. Mas precisamos nos lembrar que, acima de tudo, eles são seres humanos e merecem nosso respeito”. No último dia 13 de junho, Liliane, a “Sorriso” foi assassinada com dois tiros nas costas pelo esposo de uma mulher a quem a usuária teria assaltado. Na Ponte Seca, nos dias seguintes ao crime o sentimento era de consternação. Poucos comentários. Menos movimento. É bom lembrar que a pedra ainda não os roubou o coração.

6 Comments

  1. Posted 9 Jul ’10 at 17:03 | Permalink

    “Tudo bom?”
    hauehauehuahe

    Não à toa, na minha época de faculdade a professora enfatizava: “perguntar ofende”. Na dúvida, use o “com licença”.
    heheheheh
    😉

    • cidadedepalha
      Posted 9 Jul ’10 at 17:59 | Permalink

      Nem me fala, Rafael! Mas o legal do trabalho de campo é também aprender o que não fazer, né… hehehe

      Valeu pelo comentário.

      Um abraço,
      Luiz.

  2. Marcos Tavares
    Posted 11 Nov ’10 at 21:34 | Permalink

    Tudo bem. Está ótimo todo o tewor da matéria. Somente solicito uma correção.: é Mocayr Avidos o nome desta Ponte ora seca. A Florentino Avidos é a vulgar Cinco Pontes.

    • cidadedepalha
      Posted 14 Nov ’10 at 14:22 | Permalink

      Obrigado Marcos. Corrigido.

  3. Marcos Tavares
    Posted 11 Nov ’10 at 21:36 | Permalink

    Leiam a publicação Escritos de Vitória ( tema: PONTES ).,editada pela PMV ( Vitória-ES).

  4. Posted 28 Nov ’11 at 1:02 | Permalink

    Não à toa, na minha época de faculdade a professora enfatizava: “perguntar ofende”. Na dúvida, use o “com licença”.
    heheheheh

    +1

Skomentuj

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*
*